Renda Fixa

Entendendo os títulos de crédito privado


Em um ambiente de taxas de juros baixas, os títulos de renda fixa de emissão corporativa ganham um papel importante dentro desta classe de investimentos. Isso é um fato que é observado em países desenvolvidos, onde o histórico de juros baixos é bem mais longo, possibilitando a observação empírica desta tendência. 

Grandes corporações brasileiras historicamente buscaram a emissão de dívida no exterior, visto que as taxas cobradas lá fora eram mais baixas do que em terras tupiniquins. 

A história mudou e diversas empresas estão quitando suas dívidas lá fora e realizando novas emissões no Brasil. Isso é um bom sinal, principalmente para o investidor de renda fixa, que passa a ter um leque de opções muito maior para investir. 

Os principais títulos de crédito privado que existem e chegam ao investidor são as debêntures, CRIs e CRAs. 

Remuneração

O primeiro ponto a se entender nos títulos de crédito privado é a forma de remuneração. 

Ao se investir em títulos soberanos, como o tesouro direto, o investidor mitiga todos os riscos possíveis e aplica na classe de ativos mais segura disponível, que só corre o risco soberano. 

Em pouquíssimas ocasiões na história vimos um país dar calote na dívida interna, então teoricamente o investidor está colocando seu dinheiro em um ativo livre de risco, que oferece uma determinada remuneração, dados os devidos prazos de vencimentos e demais características. 

Em um título de crédito privado, o emissor não é o governo e sim uma empresa não financeira. Essa empresa corre diversos riscos que a união não está submetida, como o risco de crédito (lembre-se que assumimos que o governo não dará calote), risco de mercado, como o surgimento de um novo concorrente para a empresa que emitiu a dívida, dizimando-a e fazendo-a perder diversos clientes; dentre outros riscos. 

Por conta destes riscos que a empresa corre e o governo não, o investidor exige uma remuneração maior do que se fosse emprestar dinheiro ao governo. Isso é algo lógico, visto que os riscos de uma empresa falir é maior do que o risco de o governo falir, por exemplo. 

Esta remuneração adicional que o investidor exige para adquirir um título de dívida privada é chamado de spread de crédito. Você já pode ter ouvido que o spread de crédito está se fechando ou abrindo. 

Se o spread está fechando, isso quer dizer que o mercado está exigindo uma taxa menor e se o spread está abrindo, isso significa que as novas emissões estão vindo com uma taxa maior. 

Vale dizer que “o mercado está aceitando” e “o investidor está exigindo” são sinônimos, visto que toda emissão nada mais é um acordo entre empresa e investidor de que eles concordam com as taxas que estão sendo emitidas. 

Quanto mais arriscada o mercado observar ser essa operação de emissão de dívida, maior será a taxa exigida. Grandes empresas têm seu status de boas pagadores, visto que dificilmente são ameaçadas. Neste caso, chamamos os títulos de High Grade, visto que eles são títulos que são avaliados como grau de investimento pelas agências de risco. 

Os títulos high grade apresentam uma remuneração pouco acima do que é observado no tesouro direto. 

Ao passo que as operações vão ficando mais arriscadas, com um prazo de duração maior, com emissores menores, que são mais suscetíveis aos riscos de mercado, a remuneração vai aumentando. 

As operações com maior risco são classificadas como High Yield, justamente por apresentarem uma remuneração maior. 

Um conceito que é extremamente importante de ser entendido, é que todos os títulos de renda fixa tem um valor de face que em geral é de R$1.000,00. Isso é uma convenção e é utilizado mundialmente. 

Valor de face é o que o investidor receberá no final do investimento. Assim sendo, se o investidor decidir comprar 25 unidades de um determinado título, ele irá receber ao final do seu período de investimento a quantia de R$25.000,00. 

A remuneração é dada a partir de quanto o investidor irá pagar neste título para comprá-lo. Imagine que a Localiza está emitindo uma dívida com prazo de vencimento de um ano, com juros de 10%. 

Se você decidir investir neste título, você estará comprando o mesmo por R$909,09, que aplicados 10%, resultará em um valor de R$1.000,00. 

Portanto, quanto maior o preço a ser pago no título, menor será a remuneração, visto que o montante final será de R$1.000,00. Ao passo que se o preço cai, o rendimento aumenta. 

Esta dinâmica é extremamente importante por conta das operações no mercado secundário. 

Crise em títulos de renda fixa?

No segundo semestre de 2019 observamos um fenômeno novo no mercado. Diversos fundos de investimento de renda fixa em crédito privado apresentavam cotas negativas diariamente. 

Vale dizer que a CVM obriga que os fundos divulguem diariamente as suas cotas, que nada mais seria do que a soma de todos os seus ativos segundo o preço que o mercado está dando. 

Esse fenômeno aconteceu pois muitos fundos detentores destes títulos precisavam vendê-los a qualquer custo, jogando o preço para baixo, no conhecido mecanismo de oferta e demanda. Se a oferta é muito alta, o preço cai. 

Os fundos precisavam se desfazer desses títulos, pois seus cotistas estavam pedindo resgate. Para pagar estes resgates, os gestores venderam estes papéis a qualquer custo para que pudessem devolver o dinheiro. 

Como vimos, quando o preço cai, a remuneração aumenta. Pudemos observar diversos títulos de bons emissores pagando taxas relativamente altas, justamente porque alguém precisou se desfazer deles. 

O motivo de resgates massivos é que com as quedas de juros, diversos investidores passaram a não mais ficar satisfeitos apenas com a renda fixa, que passou a oferecer rendimentos muito baixos comparados ao passado. 

Isso fez com que diversos deles solicitassem resgates. Como os ativos investidos por esses fundos não são tão líquidos, eles tiveram de se desfazer a qualquer custo, jogando os preços para baixo. 

Como o movimento foi muito grande, as cotas passaram a ficar negativas, pois o preço estava abaixo dos preços do dia anterior. O que aconteceu foi uma reação em cadeia que machucou bastante vários fundos de crédito privado. 

Isso causou um segundo movimento, que foi uma onda de cotistas que não estavam necessariamente insatisfeitos com o retorno desses fundos, mas ficaram tão assustados com um fundo de renda fixa rendendo negativo, que decidiram por sacar também, colocando ainda mais pressão nas gestoras para pagar resgates. 

Esse segundo movimento também derrubou muita gente e bilhões de reais foram pagos em resgates. 

Oportunidade

Essa onda de títulos de crédito privado no mercado fez com que seus preços caíssem, fazendo então que a taxa aumentasse. 

Gestoras que tinham dinheiro em caixa puderam aproveitar ótimas oportunidades de se beneficiar com isso e comprar das outras gestoras desesperadas, títulos high grade com um retorno substancialmente acima do normal atualmente. 

É por isso que ouvimos no noticiário nos últimos meses que o spread de crédito se abriu. Como a taxa aumentou, o spread entre título de crédito e o tesouro direto também aumentou. 

Olhando pelo lado técnico, fazia sentido a abertura do spread apenas se a condição geral de bons pagadores dos emissores de títulos tivesse piorado nos últimos seis meses. O que aconteceu, na verdade, foi o contrário. 

Com o país se recuperando da crise e a economia voltando a esquentar, a saúde financeira das empresas melhorou, o que corrobora com um fechamento do spread de crédito e não uma abertura.

Conclusão

É sempre importante também ter atenção ao critério de remuneração do título. Hoje em dia não é mais interessante adquirir títulos que sejam em percentual do CDI. É sempre melhor ter preferência em CDI+ ou IPCA+.

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