Renda Fixa

Insights: juros negativos


Certamente o fenômeno de juros negativos desafia a lógica econômica. O comum é que ganhemos juros ao emprestar nosso dinheiro a alguém. Essa é uma lição que os economistas aprendem em seu primeiro ano de graduação. 

Em um cenário de juros negativos, na verdade pagamos para que possamos emprestar nosso dinheiro. Sim, contraintuitivo. 

Apesar de estranho, o fenômeno tem acontecido em alguns países desenvolvidos, com o Japão e a Europa liderando a turma. Após a crise de 2008, na sede de recuperar suas economias, os países desenvolvidos passaram aplicar as mais diferentes formas de estímulo econômico. 

A principal arma para um país que está se recuperando de uma crise, é a política monetária a partir da taxa básica de juros. Em geral, os bancos centrais sobem a taxa de juros em momentos de economia aquecida para que consigam manter a inflação em patamares razoáveis. 

Uma alta das taxas de juros faz com que as pessoas e as empresas gastem menos, o que diminui o estímulo à inflação. 


O contrário também é verdadeiro, já que em momentos em que a atividade econômica está baixa, os bancos centrais baixam suas taxas de juros, a fim de que as pessoas e as empresas gastem mais, gerando mais empregos e aumentando um pouco a inflação. 

Em um mundo de juros negativos, os investidores de títulos de dívida, investem tendo a certeza de que no futuro, no momento do resgate, terão menos dinheiro do que hoje. 

Com o banco central definindo uma taxa básica negativa, isso guia todas as outras classes de dívidas a tender também para o campo abaixo de 0.

Só para se ter uma noção, segundo a Bloomberg, mais de 17 trilhões de dólares do mercado de crédito estão em títulos com juros negativos. O montante aumenta para US$35,7 trilhões quando falamos de juros reais negativos, quando já descontamos a inflação. 

Por que alguém iria comprar um título com juros negativos?

Os motivos são vários, mas abaixo listarei alguns.

As pessoas podem ter medo do futuro da economia no que diz respeito a recessões, crises no mercado de crédito, quedas adicionais no juros básico, dentre outros. Isso faz com que eles prefiram títulos de alta qualidade, o que garante uma perda, mas seguros de que apenas perderão uma pequena quantia. 

Outro motivo que pode guiar os investidores a adquirir títulos de dívida com juros negativos é uma crença de que os juros cairão ainda mais, o que apreciaria seus títulos que foram comprados quando a taxa estava negativa, mas maior. 

Outro ponto que justifica a compra de títulos com juros negativos são as expectativas de inflação. Desta forma, se o investidor define que deseja um retorno real de 3% ao ano, e a expectativa de inflação for de 2%, isso faz com que um título deva pagar 5% ao investidor. 

No entanto, em um cenário de expectativa de deflação de 4%, o título deveria pagar -1% e o investidor teria seu objetivo garantido, preservando seu poder de compra. 

Por fim, o investidor também pode acreditar que a moeda do título irá se apreciar mais do que o juros negativo, o que garantiria um lucro a ele na operação. 

Quais os motivos dos juros negativos

Neste campo, surgirão as mais variadas explicações, mas a verdade mesmo é que ninguém sabe ao certo o que causa este fenômeno nos países desenvolvidos. O motivo para a incerteza é óbvio: isso nunca aconteceu na história. 

Ora, se algo nunca aconteceu no passado, como podemos ter a certeza do motivo que o causou agora?

Apesar disso, acredita-se que existam algumas explicações mais plausíveis que outras. 

A primeira e mais óbvia, é que os bancos centrais querem estimular a economia, o que não foi alcançado com os juros próximos a zero. A solução então seria abaixar ainda mais e entrar no campo negativo. 

O objetivo é que as empresas passassem a colocar em prática seus planos de investimentos, uma vez que se o dinheiro ficasse parado no banco, ele teria um rendimento negativo. O mesmo vale para as pessoas, que teriam de consumir para não perder dinheiro. 

Ainda é muito difícil dizer se a medida surtiu efeito, nos forçando a esperar para assistir ao desfecho da história. 

Nesta mesma linha de estímulo à economia, os bancos centrais ao redor do mundo têm um plano em andamento chamado de quantitative easing, que consiste na recompra de títulos por parte dos BCs. Isso tem jogado dinheiro na economia e feito com que o preço dos títulos suba, o que diminui seu rendimento.

Outro motivo que pode ser possível é que com a economia de vários países patinando, investidores simplesmente não estão querendo investir em qualquer tipo de ativo com riscos. Este fato aumenta a procura por ativos livre de risco, jogando os preços para cima e diminuindo o rendimento futuro. 

Além disso, o pessimismo que ronda tais países pode estar afastando os investidores dos ativos reais, com medo de desdobramentos piores no futuro. 

Estariam os bancos centrais reféns?

Um ponto muito importante, que talvez mostre que a tendência é de um mundo inteiro de juros baixos e até negativos, diz respeito às configurações tecnológicas e demográficas. 

Uma verdade econômica é que a tecnologia torna o mundo mais deflacionado. Isso acontece porque a tecnologia consegue substituir diversos postos de trabalho, a um custo muito menor. Se a empresa consegue substituir 10 trabalhadores que ganhariam R$5 mil reais cada, por uma tecnologia que lhe custa apenas R$1 mil por mês para manter, ela acaba de destruir 10 postos de trabalho e tira de circulação R$50 mil reais por mês. 

Se estes trabalhadores perdem seu emprego, eles não conseguem consumir, a demanda diminui e a pressão nos preços é menor também. Ou seja, a empresa está tirando dinheiro da economia, o que está fazendo com que o consumo também diminua.

Outro fator, é que com a tecnologia, diversos produtos e serviços tiveram seus custos de produção diminuídos, uma vez que se um produto precisa de 5 trabalhadores para que ficasse pronto, hoje é necessário apenas um, para acompanhar o funcionamento das máquinas. 

Se os custos diminuem, os preços geralmente acompanham. Com isso, o profit pool de diversos setores não acompanhou a inflação e continuou estagnado, o que tira pressão inflacionária do mercado. 

Com uma taxa de juros alta, as empresas têm mais receio de projetos e investimentos de longo prazo, o que também diminui a atividade e não cria novos empregos. Sendo assim, os trabalhadores que foram demitidos da empresa que adotou um robô, terão muito mais dificuldade em conseguir outro emprego e voltarem a consumir e girar a roda da economia. 

Desta forma, se os BCs decidem por deixar a taxa de juros elevada, a economia não anda. Mas agora, este estímulo deve ser ainda maior, o que pode estar trazendo as taxas de juros para patamares muito próximo a zero, tanto no campo positivo, quanto no campo negativo. 

A demografia também tem um papel importante na explicação dos juros baixos. Devemos considerar que a expectativa de vida de um cidadão hoje é muito maior do que 50 anos atrás. 

Apesar disso, a vida de trabalhador do cidadão geralmente dura o mesmo tempo ou teve uma melhora pequena quando comparada com o passado. Ora, se hoje eu vivo mais tempo, mas trabalho o mesmo tanto do que no passado, isso significa que eu devo guardar mais dinheiro, para que consiga ter uma aposentadoria boa por um longo período de tempo. 

Antes eu precisava guardar dinheiro apenas para aproximadamente 10 anos, já que eu pararia de trabalhar aos 60 e morreria por volta dos 70. Hoje eu irei parar de trabalhar aos 65 anos, mas viverei até os 90. Isso significa que eu devo guardar dinheiro para 25 anos de aposentadoria. 

Se analisarmos o fato, isso mostra que a tendência de consumo pode ser menor por conta disso. 

Agora um questionamento interessante: considerando que devo guardar dinheiro para uma aposentadoria de 25 anos. Sei que o cenário é nebuloso e que não tenho certeza de nada economicamente falando. 

A minha decisão deverá ser de consumir e fazer a economia girar ou guardar dinheiro em casa (já que os títulos do governo pagam juros negativos)? 


Note que não há nada que faça este cidadão consumir, já que o que está em jogo é o bem estar dele durante a aposentadoria. Neste caso, o BC pode trabalhar o juros da forma que for, ela não conseguirá estimular este cidadão a consumir. 

Os juros negativos chegarão ao Brasil?

Pode até ser que sim, mas não deve ser algo que iremos presenciar vivos. Se um país emergente colocar seus juros no campo negativo, isso pode ter duas explicações: o mundo entrou em um colapso produtivo e os juros negativos reinam em todo o mundo ou o Banco Central perdeu a cabeça e deixou de lado sua política cambial. 

Nenhuma das duas alternativas me parece razoável atualmente, portanto acredito que não acontecerá. 

Além disso, o Brasil vem se recuperando de uma crise muito forte e já está com juros nas mínimas históricas, no patamar de 5%. Neste ciclo o juros deve chegar até 4% no máximo, o que ainda é muito longe do negativo. 

Também não existe perigo de deflação, o que talvez forçasse os juros a irem para o patamar negativo. Mesmo o desemprego altíssimo não fez com que houvesse perigo de deflação. 

Mas algo que estamos presenciando de forma inédita no Brasil são os juros reais negativos. Algumas formas de investimento já apresentam essa característica. Isso significa que o investimento até tem um rendimento positivo, portanto o investidor vê sua conta aumentar. 

O que por muitas vezes o investidor não vê, é que na verdade ele está perdendo poder de compra, já que a inflação foi maior do que o rendimento dele. 

Conclusão

Entender os juros negativos ajuda a entender o atual cenário da economia mundial. Como dito, não acredito que o fenômeno chegue ao Brasil no médio-longo prazo. Talvez um dia ele chegue, mas é muito além do que nossos olhos podem ver. 

O assunto também é de difícil resolução e divide inclusive especialistas. O nosso papel de investidores é estarmos informados sobre o fenômeno. Além disso, vale a pena checar nossos investimentos para entendermos se estamos ficando com um poder de compra maior ou menor. 

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