Renda Fixa

Insights: montando sua carteira para 2020


Com o fim do ano chegando, é comum que as pessoas já estejam com a cabeça na próxima década. Essa também é uma boa hora para você investidor repensar a forma como está investindo e se sua carteira está preparada para os anos vindouros. 

Não que devamos pensar em 2020 para o ano para fazer a vida e ficar milionário. Pode até ser que aconteça, mas o sucesso nos investimentos não se ganha em apenas um ano. Se trata de boas performances ano após ano, deixando com que a mágica dos juros compostos aconteçam. 

Todos gostariam de escolher uma ação que se valorizará 100% no próximo ano. Mas você já parou para pensar em uma carteira que rende 20% por cinco anos? Com os juros compostos, ao final do período o rendimento terá sido de 249%. Interessante, certo? 

Um rendimento de 20% ao ano é difícil de se conseguir, mas não é impossível. O segredo está na alocação. Se uma carteira estiver bem diversificada nas mais diferentes classes de ativos, além de diversificar também dentro dessas classes - não dá para escolher apenas uma ação e alocar todo seu capital nela - certamente estaremos mais perto de atingir o objetivo. 

A partir de hoje teremos uma série de artigos que te ajudarão a estar mais preparado para revisitar sua mente e a forma como você investe, além de lhe auxiliar a montar uma boa carteira para surfar os próximos anos. Tenha sempre em mente: investir é uma maratona, não uma corrida de 100 metros. 

Diversificação

A regra número um para uma carteira ser julgada como boa é a diversificação. Ela é nosso único almoço grátis disponível, da qual devemos usar e abusar. 

A diversificação deve ser utilizada como uma forma de mitigar riscos e angariar retornos caso nosso cenário base não se concretize. E acredite, dentro os diversos cenários base que iremos traçar, uma parte considerável deles não irá se materializar. 

Uma carteira pulverizada nos ajuda a dormir tranquilo em um mundo que não entendemos. O futuro é incerto e insiste em ficar no… futuro. Como já dizia um velho sábio: “é difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro”.

Ora, eu mesmo tenho um cenário interessante para 2020. Neste cenário as reformas passariam com alguma resistência no congresso - como sempre acontece -, o crescimento do PIB viria de forma mais surpreendente e a inflação convergiria para o piso da meta do BC. 

Apesar de uma inflação um pouco mais forte, o BC se sentiria confortável para manter os juros baixos, visto que o desemprego ainda continuaria alto e ainda haveria um hiato de produto. 

Neste cenário, as ações e o juro longo seriam novamente grandes vencedores.

Acontece que o nosso presidente pode simplesmente desandar a falar bobagens a ponto de atrapalhar o andamento das reformas no próximo ano. Paulo Guedes pode ficar de saco cheio e se decidir que depois de tudo que já fez na vida, não quer ficar aguentando desaforo e se despede do ministério da economia. 

A guerra comercial entre China e Estados Unidos pode não se resolver a tempo de salvar o mundo de uma recessão, o que prejudicaria muito o Brasil, uma vez que em momentos de recessão, o capital sai dos emergentes em um movimento conhecido como fly to quality, indo para o terreno seguro dos EUA.

Diversas coisas podem acontecer apenas neste próximo ano, sem falar de 2021, 2022… 

O que nos resta, portanto? Diversificar! Se tivermos uma carteira bem diversificada, conseguiremos nos expor aos mais diferentes cenários de retorno. Claro, se estamos mais otimistas com o Brasil e o mundo no próximo ano, iremos nos expor a ativos reais de forma mais contundente. 

Para o caso da renda variável, a diversificação fica ainda mais importante. Além do que já foi citado acima, o preço das ações no curto prazo obedecem a regras aleatórias, algo como o caminhar de um bêbado. Não significa, no entanto, que determinada ação seja boa ou ruim. 

No longo prazo, no entanto, o preço das ações acompanha o lucro das empresas que estão por trás delas. Se uma empresa gera lucro constantemente e tem boas perspectivas para o futuro, é comum que suas ações acompanhem no longo prazo. 

No curto prazo, no entanto, elas são afetadas pelos mais diferentes problemas técnicos e notícias. 

As empresas obedecem a ciclos empresariais, que são mais longos do que gostaríamos que fossem. Não é lógico pensarmos que uma nova direção em determinada companhia irá efetuar as mudanças necessárias e colher os resultados em apenas 3 meses. Essas mudanças demoram anos para terem efetividade. 

Esses são apenas alguns motivos para que você opte por uma carteira diversificada para os próximos anos. Em um futuro incerto, como sempre é, a única forma de conseguirmos enriquecer tranquilos, é diversificando. 

Sua carteira, portanto, deve ter títulos de dívida, ações, fundos imobiliários, fundos multimercados, dólar, opções e ouro. Se tiver a oportunidade, é interessante também ter participação em fundos de private equity. Com o atual patamar de juros, estes veículos passarão a ter mais representatividade e se mostram uma boa forma de angariar retornos. 

O gráfico acima mostra a alocação que julgo a ideal para surfar a onda de recuperação da atividade econômica brasileira. Para mim, essa é a solução ideal de carteira para qualquer que seja seu perfil de investidor. 

Não estou falando que escolhendo estas proporções, você terá um retorno garantido, mas certamente existe mais chance para que sim do que não. 

Para você que se julga com perfil mais agressivo nos investimentos, você pode subir mais sua fatia em ações, diminuindo a exposição em fundos multimercado e renda fixa. No entanto, não tenha menos do que 15% de cada um. Isso significa que você deve alocar no máximo 55% em bolsa, algo que já é bem arrojado e não indicado para a maioria. 

Caso não se sinta tão confortável com a alocação acima, você pode abaixar um pouco a alocação em ações e aumentar em renda fixa e fundos multimercados. Não deixe, no entanto, que seu medo te impeça pegar a grande onda de alta que a bolsa deve ter nos próximos anos. 

Cada classe de ativo presente em nossa carteira será melhor trabalhada ao longo das próximas semanas. Mas antes de finalizarmos, acredito que seja importante destacar um ponto. 

Saudosismo que atrapalha

O investidor um pouco mais velho pode se sentir incomodado com a alocação proposta acima. Ele pode julgar que os riscos sejam muito elevados, com uma alocação em renda variável de 45%. 

Tudo bem, eu não julgo. Esse mesmo investidor viu, por anos, a renda fixa pagar 12% ano ano, sem riscos e sem chacoalhadas de preço. Ao mesmo tempo, viu a bolsa de valores sofrer para bater a renda fixa e ainda contar com marcações a mercado instantâneas. 

A questão é que o que acontecia no Brasil, era, na verdade, uma anomalia de mercado. O correto segundo a teoria econômica é a renda variável pagar mais, justamente porque ela tem mais riscos. 

O movimento que aconteceu nos últimos meses veio justamente para corrigir esta falha. Ao mesmo tempo, a reforma da previdência foi aprovada e pelo menos mais três reformas estão engatilhadas para o próximo ano.

Estas reformas tiram do governo uma centena de gastos obrigatórios e dão mais liberdade orçamentária para colocar as dívidas em dia. A onda de privatizações também colabora para o fim dos gastos do governo em empresas. 

Tudo isso corrobora para uma maior abertura econômica e melhora muito o ambiente de negócios no Brasil. Com as engrenagens azeitadas, a taxa básica de juros pode permanecer em patamares baixos por um período prolongado de tempo. 

Com os juros baixos, a renda fixa irá pagar menos, visto que os títulos do governos estarão pagando muito pouco. Já foi falado aqui que alguns fundos de renda fixa apresentarão rendimentos reais negativos. 

Além disso, um menor patamar de juros torna diversos projetos mais viáveis, visto que o crédito estará disponível de forma mais barata. Isso impulsiona o consumo das famílias e beneficia, por exemplo, o setor de construção civil, que deve se aquecer nos próximos meses, junto com uma revisão para cima dos aluguéis. 

Com o cenário acima, os rendimentos de 1% ao mês sem riscos, se tornam inviáveis. A partir de agora, o investidor terá que se tornar menos avesso a riscos, assim como já é na vida. Cada escolha uma renúncia. 

Se na vida temos de arriscar para conquistarmos mais, nos investimentos é estritamente a mesma regra. 

Além disso, voltamos àquela velha máxima que prego aqui de que risco não é volatilidade. Utilizando o mesmo exemplo, uma debênture da Rumo tem exatamente o mesmo risco de perda de capital que uma ação da Rumo, apesar de a segunda ter uma volatilidade muito maior. 

Volatilidade é apenas um conceito técnico que é usado, de forma errada, como uma medida para risco. Não é porque não se mexe que não que é arriscado. 

Portanto, meu caro investidor, se acostume à assunção de risco. O que acontecia com a renda fixa no Brasil era um almoço grátis e na grande maioria das vezes, eles não estão disponíveis. 

Esta solução definitiva de carteira é diversificada justamente para a mitigação de riscos. 

Quando finalmente virarmos a chave de que o 1% ao mês está enterrado, poderemos dar o próximo passo rumo à uma melhor forma de se investir. 

Investir pode até parecer difícil e diversas vezes irão te fazer acreditar que realmente o é. Apesar disso, é mais ou menos como a vida. Se você realmente tiver vontade de fazer acontecer, estudar e saber fugir das grandes encrencas, o crescimento virá.

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