Renda Fixa

Insights: seus investimentos em 2020


Feita a introdução na semana passada, onde discorri sobre os principais fatos econômicos e políticos que devem acontecer ao longo de 2020, chegamos hoje a um maior nível de detalhe sobre as influências nas principais classes de ativos. 

É importante fazer novamente o disclaimer de que não quero aqui acessar o futuro e tentar adivinhar o que irá acontecer nos seus investimentos em 2020. O futuro é por definição física e mitológica, inacessível. Não se trata também de um exercício de adivinhação, visto que como já disse aqui, sou péssimo em fazer previsões, principalmente sobre o futuro. 

O que quero nas próximas linhas, é dar a minha opinião sobre o que acho mais provável que aconteça neste ano, sempre com a ciência de que na verdade, não temos certeza de nada e que por mais belo que possa parecer os acontecimentos abaixo narrados, eles podem simplesmente não acontecer e devemos estar preparados também para este cenário. 

Renda Fixa

O ano de 2019 foi atípico para os investimentos de renda fixa. A mais famosa classe de ativos de um país que sempre conviveu com juros nas alturas, foi definhando ao longo do ano e parece finalmente estar condizente com o resto do mundo. Explico. 

O histórico de juros alto no Brasil sempre fez com que o investidor pudesse ter ganhos da ordem de até 15% ao ano, basicamente sem correr nenhum risco, comprando títulos do governo através da plataforma do Tesouro Direto. 

Acredite você ou não, 15% sem qualquer forma de risco, é algo surreal e demasiadamente difícil de se alcançar, mesmo quando partimos para os investimentos com um pouco mais de risco. 

Não é difícil se deparar com um gráfico em que o CDI bate o Ibovespa ao longo da história. O Brasil era o país onde o investidor que não corria riscos, na média ganhava mais do que o investidor que corria os riscos da bolsa de valores. 

A literatura de finanças diz que quanto mais arriscado um investimento, maior deve ser o retorno esperado. No Brasil, o investidor que optava por mais risco, pagava ao invés de receber. 

A normalização da taxa de juros, aliado a uma extensa plataforma de reformas estruturais, fez com que a renda fixa, em especial as emitidas pelo governo, voltassem ao seu lugar normal, pagando nada mais do que retornos marginalmente acima da inflação, como deve ser. 

O Banco Central trouxe a Selic para seu menor patamar na história, aos 4,5%. Ao longo de 2020, pode haver um outra queda de 0,25%, o que encerraria o ciclo de quedas e deixaria o mercado esperando para um novo ciclo de alta, que não deve ocorrer este ano. 

Dito isso, para obter retornos que façam a diferença na sua rentabilidade final, o investidor terá de alongar os prazos e correr mais riscos. Em especial os vencimentos intermediários e longos ainda apresentam um gordurinha que pode fazer a diferença no final do ano. 

Prefira títulos com vencimento a partir de 2024. Existem diversas oportunidade de títulos prefixados e indexados à inflação a partir deste vencimento que apresentam um bom retorno.

A exposição ao risco em renda fixa pode ser feita a partir dos títulos de crédito privado, desde que de forma pulverizada, em diversos títulos. Além disso, é importante a exposição à bons emissores, que estão emitindo dívida para crescimento e não simplesmente para pagar outras dívidas. 

Ainda existem boas opções de títulos prefixados e indexados à inflação que estão mal precificados pelo mercado. Além de boa rentabilidade, caso sejam carregados até o vencimento, estes títulos podem apresentar uma boa oportunidade de lucro antes do vencimento, através do mercado secundário. 

Em certo momento do ano, a NTB-B50, título de inflação do governo em 2050, apresentava valorização superior a 50% no ano. Isso não acontecerá novamente, visto que o ciclo de corte de juros está próximo do fim e diversas opcionalidades já estão incorporadas no preço. 

A questão é que o mercado parece ter ficado relativamente pessimista com a inflação nos últimos meses de 2019. Isso fez com que o mercado passasse a enxergar altas nos juros ainda em 2020. 

Mas o que levou a inflação a acelerar no final do ano foram os choques de preços, os quais o Banco Central não está incomodado, visto que eles está de olho nos núcleos de inflação, que não consideram choques e ainda estão ancorados, corroborando para uma taxa Selic baixa. 

Multimercados

A classe que é representada por fundos de investimentos, é caracterizada por poder investir em qualquer ativo. 

Desde o início do milênio, estes fundos ganharam muita relevância, com ganhos vertiginosos no primeiro governo Lula, onde houve um grande queda de juros e os fundos puderam aproveitar isso através de apostas macro. 

Isso fez com que a fama dos Multimercados fosse de que eles só conseguem ganhar dinheiro em cenário de queda de juros, salvo raras exceções, como o Verde de Luis Stuhlberger, que também tinha maestria quando o assunto era câmbio. 

A verdade é que o cenário não é esse atualmente e os multimercados passaram a aproveitar cada vez mais o desenvolvimento da bolsa de valores para compor seus retornos. 

Vale dizer ainda que muitos fundos também sabem aproveitar a globalização e investem em diferentes países, principalmente em juros e moedas. 

Como estes veículos são livres para investir nas mais variadas classes de ativos, é importante que o investidor conheça o estilo de gestão no momento em que for investir em um destes. 

Não será difícil encontrar fundos com retorno excelente e pouca volatilidade nos últimos dois anos. O problema é que o cenário do último biênio foi de queda de juros e valorização massiva de ativos. 

Os juros não irão cair vertiginosamente a partir de agora e a valorização de ativos reais deve acontecer, mas deve ser feita a devida diligência para escolher os melhores cavalos. 

Não adianta, portanto, investir naquele fundo que apresentou um ótimo retorno nos últimos anos, investindo apenas na reprecificação dos títulos de renda fixa. Isso não irá mais acontecer e se o gestor não mudar sua alocação, o retorno do fundo será medíocre. 

O momento é de apostar em fundos multimercados com um viés maior de bolsa. Procure saber o background dos gestores e prefira os veículos que apresentam mais transparência. Se o fundo teve um retorno passado bacana, mas não apresentou de que forma isso aconteceu, então é melhor ficar de fora pois podem haver milhares de riscos escondidos. 

Prefira também os fundos com mandato para maior volatilidade, visto que os veículos que não têm este mandato, ficam muito amarrados e não podem colocar a estratégia para trabalhar a pleno vapor. 

Renda Variável

Esta é a classe que julgo ser a mais provável ganhadora de dinheiro dos próximos anos, através de ações e fundos imobiliários. 

Os ativos reais ganham muito valor quando os juros estão baixo e o governo deixa de por a mão onde não deve. Este é justamente o cenário atualmente. 

Em 2019 o Ibovespa apresentou uma bela valorização, mas ela foi causada totalmente pelos acontecimento de Brasília e a queda de juros. A partir de agora, devemos observar as ações se valorizando pelo crescimento de lucros das empresas, que deve vir de forma menos tímida a partir deste ano. 

Nos anos de crise, as empresas fizeram seu dever de casa e se tornaram mais enxutas e eficientes. Elas agora saem deste período ruim melhores do que entraram, uma vez que diversos concorrentes ficaram pelo caminho ou então foram incorporados. 

Isso faz com que o lucro potencial seja gigantesco. O país está na cabeceira da pista para decolar em 2020, o desemprego começa a diminuir, o consumo voltou de forma contundente após a Black Friday e o governo deve continuar fazendo sua parte em deixar a economia andar com as próprias pernas. 

Com este cenário, cada vez mais empregos serão gerados, os empresários irão tirar do papel os planos de investimentos das empresas e a roda da economia como um todo irá girar. Isso gera mais consumo, que aumenta o lucro das companhias e assim sucessivamente. 

O que é diferente de outras recuperações de crise, é que o principal motor da economia será justamente a economia privada. Com o governo fora da jogada, nenhuma demanda artificial será criada e o país pode crescer em seu ritmo adequado. 

Os juros baixos farão com que as pessoas possam ter acesso ao crédito, o que impulsiona o consumo e faz as empresas terem mais confiança para investir em projetos de expansão. 

Se em 2019 Brasília foi a responsável pela alta da bolsa, agora ela será coadjuvante. Se o governo ajudar e conseguir endereçar outras reformas em 2020, isso funcionará como catalisador para o crescimento e para a valorização dos ativos reais, como é o caso das ações e dos fundos imobiliários. 

Para o caso dos FIIs, também houve uma grande valorização em 2019, motivada por boas expectativas e queda de juros. Mas a procura por imóveis começará de verdade em 2020. 

A questão é que os projetos imobiliários são longos, a ponto que a demanda chega muito mais rápida que a oferta. Se a oferta permanece a mesma e a demanda aumenta, os preços irão subir. 

As vacâncias irão cair ainda mais e os aluguéis serão revisados para cima, aumentando o fluxo de aluguéis para o fundo e, consequentemente, para os cotistas. 

Dólar

Existe um ditado que diz que as previsões do câmbio foram criadas para humilhar os economistas. Se isso é verdade ou não, não nos cabe a discussão neste espaço. Fato é que previsões sobre o dólar são as mais difíceis e sem sentido de se fazer. 

O que quero oferecer a você, é uma das muitas explicações para um câmbio mais valorizado do que foi visto nos governos do PT. 

Como o Brasil sempre teve um juros muito alto, o investidor estrangeiro captava dinheiro lá fora e investia aqui para ter um alto ganho, sem riscos. Aquele mesmo cenário que foi discorrido na seção de renda fixa. 

Se o gringo capta lá fora e investe aqui, ele precisa trazer o dinheiro para o Brasil, onde ele irá vender seus dólares em troca de reais. Se há uma grande oferta de dólares no mercado, o preço dele cai e isso faz com que o câmbio brasileiro fique mais apreciado. 

Hoje o diferencial de juros entre Brasil e EUA é baixíssimo, ao ponto em que não compensa mais captar lá fora e investir aqui apenas para pegar este ganho sem risco. O real deixou de ser uma moeda de carrego, pois os ganhos sem riscos não existem mais por aqui. 

Outro fator que explica o dólar mais valorizado é o diferencial de crescimento. A economia dos EUA vai de vento em popa há 10 anos e ainda não mostrou sinais de que irá parar. Enquanto isso, a década perdida de 2010-19 apresentou crescimento real próximo a zero. 

Em um país com crescimento, os investimentos em ativos reais, como ações, por exemplo, costumam andar melhor, visto que o mercado acionário fica altista em períodos de expansão do produto. 

Por fim, o mundo anda meio nebuloso, com tensões geopolíticas espalhadas pelo globo terrestre. Os países emergentes estão sofrendo com guerras civis e situações econômicas críticas. O gringo tenta uma vez e toma porrada, tenta a segunda e toma outra porrada. Depois disso, ele quer um pouco de paz e volta para os países desenvolvidos, onde não há altos retornos, mas também não há risco de quebra. 

Quando o investidor estrangeiro tira dinheiro dos emergentes, ocorre o que é chamado de flight to quality, onde o investidor passa a alocar apenas em países de alta qualidade, ainda que tenha baixo retorno. 

Essas são três das milhares de explicações para um câmbio brasileiro mais depreciado. Dito isso, a taxa de câmbio de equilíbrio deve variar entre 3,90 e 4,20 realmente. 

Note que é uma banda relativamente alta e não estou nem dizendo que o câmbio terminará 2020 dentro deste intervalo. Como disse, as previsões para o dólar só nos fazem passar vergonha e o que devemos tentar fazer é apenas entender o que causa isso. 

O dólar funciona como uma boa proteção para sua carteira, visto que em momentos de estresse nos mercados, ele costuma se valorizar. Além disso, dólar é uma moeda forte e se tudo der errado, dólar ainda continua sendo dólar. E acredite, tudo pode dar errado. O que nos resta é estar devidamente protegidos. 

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