Renda Variável

Ainda há tempo de entrar na festa?


Depois de ver o Ibovespa superar os 100 mil pontos, a pergunta pode começar a pesar para algumas pessoas. Afinal, ainda dá tempo de pegar essa alta da bolsa?

Na atual conjuntura econômica do Brasil, considero sim que a bolsa seja o melhor ativo para os próximos anos. Alguns investidores podem até duvidar da capacidade da renda variável bater os outros tipos de investimentos após assistir o principal índice da bolsa brasileira triplicar desde o Impeachment da ex-presidente Dilma.

O que pode faltar aos olhos de alguns é a mudança estrutural que o país se propôs a passar e inclusive já deu início. É um momento único em nossa história e ao que parece, os astros estão alinhados para que o Brasil finalmente dê certo.

Dito isso, é racional pensar que a bolsa de valores é o lugar que apresenta a chance de multiplicação de capital e que estará mais preparada para capturar os grandes avanços que este ciclo trará para o Brasil.

Antes de entrar na argumentação, vale repetir a célebre frase de João Luiz Braga na Expert 2019: “O Brasil não perde a chance de perder uma chance”. Apenas para ilustrar que, apesar do otimismo com a bolsa, a boa diversificação da carteira jamais deverá ser descartada.

Mas então, quais são os motivos pelos quais acredito que a bolsa é o melhor ativo do momento, mesmo após ter rompido a barreira dos 100 mil pontos?

Rebalanceamento de carteiras

É clichê dizer que o Brasil é o país da renda fixa. Também não é passível de julgamento o investidor que nunca foi para a renda variável. No tripé de alto retorno, liquidez e baixa volatilidade, o investidor podia ter os três através do CDI.

Pois os tempos mudaram e o que eu disse na introdução sobre a conjuntura econômica quer dizer exatamente isso. Se no passado tivemos uma taxa básica de juros a 14,25%, hoje isso já não existe mais. A selic se encontra em 6% ao ano, com todo o consenso indicando que ela irá para 5% até o final de 2019.

Para os mais ousados, as projeções chegam ainda mais abaixo dos 5%. Novamente, não passível de julgamento. Em tempos de taxas de juros negativas ao redor do mundo, temor por recessão e mudanças demográficas e tecnológicas, pode ser sim que tenhamos chegado ao tempo do juros baixo.

Dito isso, o investidor que antes tinha o CDI como seu melhor amigo, deixa agora de contar com o alto retorno. Caso queira angariar um retorno consideravelmente acima da inflação, terá que assumir mais riscos para isso.

Outro ponto neste mesmo assunto, é que o Brasil é sub-alocado em renda variável comparado ao resto do mundo. Enquanto que em nosso país a exposição em renda variável é de apenas 7% do total de investimentos, a média do mundo é de 40% e nos EUA esse número passa dos 60%.

É uma diferença brutal e esse gap tende a se fechar com o atual cenário macro do país. Além disso, o mercado financeiro tem se transformado e as grandes plataformas catalisaram tal transformação. Cada vez mais o brasileiro está se educando financeiramente e migrará para a renda variável.

O último tópico de rebalanceamento de carteira diz respeito ao investidor institucional, que é a classe que mais movimenta dinheiro na bolsa diariamente. Os fundos de ações long only e long biased representam apenas 12% da indústria de fundos no Brasil. Enquanto isso, esse número é de 37% nos EUA.

No país da renda fixa, os fundos macro representam a maioria. No entanto, o investidor está mudando sua cabeça e está aprendendo a fazer contas. A partir do momento em que ele concluir que não vale a pena pagar taxa de administração e performance para tem um juro real quase zero, o pêndulo irá mudar para a renda variável. Com essa classe injetando dinheiro na bolsa, o preço das ações tende a se ajustar a essa nova normal.

Reclassificação de múltiplos

Como já foi dito, a economia do país começa a dar sinais de que agora será diferente. A Reforma da Previdência já foi aprovada na Câmara e em breve deve passar sem maiores problemas pelo Senado.

Com a Previdência no passado, o Brasil resolve parcialmente seus problemas fiscais e sinaliza para quem quiser ouvir que as coisas mudaram. Com os gastos fiscais resolvidos, a percepção externa muda e o grau de investimento passa a ser uma realidade.

A partir do momento em que as agências de classificação de risco começarem a olhar para o país novamente, o investidor estrangeiro que se machucou muito com os emergente no passado recente, começa a olhar novamente com algum carinho para o Brasil.

Se a visão do estrangeiro muda, ele entra pesado na bolsa, uma vez que as oportunidades que ele está tendo lá fora não são das melhores. Com o perigo de desaceleração em diversos países do mundo, ele pega o inverso do ciclo em um novo Brasil que agora parece estar caminhando.

País estável, com boa visibilidade e boas oportunidades de crescimento, é tudo que o estrangeiro quer nesse momento de inverno nos mercados no exterior.

Novamente, questão de oferta e demanda, se vem muito dinheiro do estrangeiro para a bolsa, o preço das ações sobe e as empresas passam a negociar em valuations mais altos realmente.

Com a oportunidade que as empresas brasileiras têm em suas mãos, elas devem negociar com prêmio sobre seu pares emergentes. Se temos um governo liberal, uma economia que vem de um de seus piores ciclos da história e nenhuma pressão inflacionária, estamos falando de uma oportunidade que não vemos lá fora, onde grandes players estão em final de ciclo.

Outro ponto sobre esse assunto é uma questão de dívida das empresas. Se estamos falando de uma selic a 5%, estamos falando também de redução do custo da dívidas das empresas. Se imaginarmos que tínhamos 14,25% ao ano poucos anos atrás, com um novo patamar de taxa de juros, automaticamente deve vir um novo patamar de múltiplos.

Crescimento de lucros

Por fim, podemos falar das empresas propriamente dito. Para contextualizar, devemos imaginar que o universo de empresas da bolsa ainda é muito restrito, com aproximadamente 400 empresas. O alto custo de listagem e manutenção faz com que na bolsa estejam apenas as melhores empresas do país.

Essas vencedoras passaram por uma das piores crises econômicas do Brasil em um exercício de administração de empresas extremamente exemplar. Elas ficaram enxutas, melhoraram processos e agora estão prontas para retomar o crescimento.

Note que os dois tópicos citados anteriormente se tratam apenas de uma mudança na forma de investir e na forma com que o investidor estrangeiro olha para o Brasil. Este tópico, no entanto, fala das grandes estrelas da bolsa.

Como dito, passamos por uma crise em que o crescimento de PIB nesta década foi próximo de zero. Isso não significou, no entanto, que as empresas também não tiveram crescimento de lucro.

As grandes vencedoras foram capazes de fazer suas manobras para que conseguissem entregar crescimento de lucro, mesmo com todo esse ambiente hostil. Agora estão com capacidade produtiva ociosa e estoque de mão de obra abundante.

As nossas empresas da bolsa poderão então passar a produzir sem aumentar seus custos fixos e aumentando pouca coisa o custo variável, visto a abundância de mão de obra barata. É a chamada alavancagem operacional.

Nossas empresas já mostraram que são capazes de entregar crescimento de receita. Com o crescimento de PIB dando as caras, as receitas continuarão a crescer, só que em ritmo mais acelerado. Como o custo fixo continuará o mesmo e o variável aumentará pouco, o lucro será exponencial.

Para coroar a questão de lucro das empresas, a diminuição do custo da dívida melhora o resultado financeiro, o que faz com que o lucro se multiplique ainda mais.

Conectando os pontos, no longo prazo, o preço das ações acompanha o lucro das empresas. Assim sendo, crescimento de lucro significa preço das ações para cima. Some isso aos outros dois tópicos acima e temos a oportunidade de finalmente decolarmos.

Conclusão

No final, tudo se trata de oferta e demanda. Como foi dito, a bolsa brasileira deve ganhar um número expressivo de investidores, tanto brasileiros, quanto estrangeiros. Com mais pessoas entrando na bolsa, a demanda por ações aumenta, o que gera uma alta no preço das mesmas.

É inegável a oportunidade que temos a frente. A bolsa definitivamente é o melhor ativo para surfar a recuperação da economia. Você até pode pegar essa recuperação com ágios nos títulos de renda fixa, a medida que as taxas de juros forem abaixando. No entanto, o crescimento de lucros, alavancagem operacional e reclassificação de múltiplos, só a bolsa pode lhe oferecer.

Como já dito no início, isso não significa, no entanto, que você deve migrar 100% do seu capital para a renda variável. Se informe, busque oportunidades de aprendizado e só então tome sua decisão.

É sempre importante lembrar: “No Brasil até o passado é incerto”.

 

 

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