Renda Variável

Dólar nas Alturas


R$ 5,25. Essa foi a máxima do dólar este ano. A maior da história. 30%. É a porcentagem que a moeda obteve de valorização somente em 2020. FED (banco central americano) estabelece linhas de acordos swap em dólares para dar liquidez às moedas de países como o Brasil. Medida tem objetivo de diminuir tensões nos mercados devido aos impactos do Coronavírus.

A pressão no câmbio brasileiro tem deixado dúvidas para investidores que possuem investimentos no exterior ou pretendem comprar a moeda, e as declarações e comportamentos dos representantes do governo e do banco central colocam a política cambial do país em cheque. 

Quando o dólar verá terra firme neste seu voo pelas alturas?

Entenda

A política cambial, da qual é responsabilidade do Banco Central, é um conjunto de instrumentos e ferramentas que um país utiliza para controlar e definir o valor de sua moeda em relação a outras no mercado mundial. Há mais de séculos que o comércio entre países, importações e exportações, existe como grande integrante da agenda econômica.

Assim, a política cambial tem o objetivo de criar um equilíbrio entre a relação (câmbio) das moedas para ajudar no desenvolvimento econômico do país. Dessa forma, a relação com o dólar, tido como moeda de maior importância no comércio mundial, é a relação do qual os investidores e os governos prestam mais atenção.

O Brasil já passou por inúmeras experiências com diferentes regimes cambiais. Acredito que alguns se lembram dos anos 1990, do real ser igualado ao valor do dólar. Naquela época, o país passava por um momento econômico distinto do de hoje, e utilizava uma ferramenta cambial, a de bandas cambiais, da qual o dólar poderia variar somente entre dois limites, muito próximos. Atualmente, o Brasil possui um regime flutuante, que determina o valor das moedas de acordo com a oferta e demanda.

Porém, em algumas ocasiões, o Banco Central aciona suas reservas oferecendo ou comprando dólar no mercado para evitar baixas e altas da moeda no curto e médio prazo. Portanto, o resultado de uma política cambial é a combinação de ações da equipe de governo juntamente com o contexto mundial e seu fluxo de transações e percepções de risco.

Dilemas dolarizados

Parece que quando o brasileiro está se acostumando com certa relação do câmbio Real com Dólar algo acontece para mudar. Aconteceu isso no final dos anos 90, após eleições de 2002, durante a copa do mundo e agora, pós eleições presidenciais de 2018. Veja abaixo o histórico da cotação dos últimos 25 anos, com alguns acontecimentos importantes.

Há sempre algum estudo comentando sobre a relação equilibrada para o câmbio, seja R$ 4,00 ou R$ 4,20 em termos atuais. Estes consideram o poder de compra de cada moeda e estudam o crescimento do país e a inflação do período para determinar uma relação de equilíbrio no câmbio. Porém, isso é muito diferente do que é praticado no free market, do qual é sujeito às pressões de compra e venda e do qual vemos notícias frequentes.

Muitos pensadores e políticos já se passaram pelos controles do ministério da fazenda e do banco central. Junto a eles, diferentes crenças de como liderar os ciclos econômicos em nosso país de tamanho continental e diferenças regionais gritantes existiram. Cada um com uma visão própria sobre como a política cambial deveria ser administrada. E para adicionar, cada um presente em um contexto econômico mundial diferente.

Os grandes dilemas dos últimos tempos relacionados com o câmbio trouxeram discussões quentes em relação à importância das exportações e importações brasileiras. Muitos acreditam que um câmbio desvalorizado favorece as exportações e assim ajuda no crescimento do PIB brasileiro, além de ajudar as empresas locais a se armarem melhor competitivamente.

Outros dizem que a abertura comercial brasileira deve ser flexibilizada e um câmbio valorizado ajuda o Brasil a importar mais barato e trazer inovações e investimentos para o país. O Brasil é exportador de algumas matérias primas e não de produtos acabados, resultando em mais discussão em torno da importância de exportar caro ou importar barato.

A relação acima pode ser colocada de maneira ainda mais detalhista dentro do dia a dia das empresas. O endividamento das mesmas, principalmente as que compram ou vendem para fora, também é afetado com variações no câmbio. Além disso, o câmbio é um fator que impacta variáveis importantes dentro da demanda agregada como inflação, investimento e consumo das famílias.

Um exemplo: se o câmbio é desvalorizado e as empresas possuem um endividamento de longo prazo em dólares, e importam matéria prima, a produção e a compra ficam mais caras. Isso afetará a inflação e saúde financeira dos negócios, ao mesmo tempo enfraquecendo o poder de compra da população com alguns produtos. Outro ponto importante, caso haja uma variação grande na taxa de câmbio, é a reavaliação de investimentos de empresas internacionais, resultando em possíveis paradas em projetos desta magnitude.

Além disso, o contexto de juros do país pode ajudar a reter dólares. Com juros muito altos em relação aos companheiros mundiais, o Brasil era um grande destino de investidores internacionais procurando investimentos seguros que pagavam um retorno acima da média.

O contexto mundial também é uma variável de grande peso dentro dos dilemas dolarizados.

A partir do momento em que o mundo cresce de maneira desigual, ou passa a sentir sintomas de recessão, ou há destaques de crescimento acima da média em alguns cantos do mundo, o fluxo de dólares em torno do planeta muda. Os focos de investimentos e as trocas de mercadorias mudam de acordo com a dinâmica da economia mundial. O Brasil sempre obteve alguma atenção dos investidores internacionais por vários motivos, sejam eles juros, produção de matéria prima e infraestrutura. 

No final dos anos 90 e início dos anos 2000, o câmbio brasileiro não conseguiu sustentar a pressão que a crise da Rússia e o calote da Argentina causaram. O resultado foi a mudança de regime cambial e uma disparada do dólar em poucos meses. Durante as eleições de 2002, a desconfiança internacional sobre a eleição do ex-presidente Lula provocou uma retirada de dólares e especulação sobre a moeda que aumentaram o câmbio devido a percepção de risco de um governo contra mercado. Pouco tempo depois, veio a crise de 2008 que questionou a essência do capitalismo. Há alguns anos, vemos uma inconsistência no controle das políticas econômicas e uma perda de confiança do investidor internacional no Brasil.

Além disso, dívidas e reservas internacionais de um país influenciam muito a sua visão em relação aos patamares cambiais. O Brasil, historicamente sempre obteve uma dívida externa, atrelada ao dólar, relativamente alta.

As reservas internacionais também são fatores de peso, sendo que hoje, o Brasil conseguiu acumular reservas. Sendo assim, vender reservas no mercado e ganhar com uma desvalorização do real é uma estratégia de conseguir recursos. Isso mostra que patamares de uma moeda valorizada pode ser benéfico para pagamento de dívidas e criação de reservas nacionais. Atualmente, o país não possui grandes dívidas externas e pouca exposição ao câmbio.

Neblina e nuvens pela frente…

O ano de 2019 foi um ano marcante para recuperação econômica do Brasil. Ao seu final, indicadores e projeções apresentaram resultados otimistas e interessantes para o desenvolvimento do país. As constantes reduções da taxa de juros e o controle da inflação foram importantes passos para chegar em outro patamar. O nível risco-país mudou e a percepção sobre nós também. Além de apresentarmos um leve crescimento econômico.

No entanto, gestores e economistas consideram que o câmbio permanecerá em patamares um pouco mais elevados do que estamos acostumados devido a alguns pontos importantes considerando Brasil e o Mundo. A volatilidade mundial traz incertezas que impactam a percepção de investidores do mundo todo. O ano de 2019 registrou a maior retirada de capital estrangeiro da Bolsa, chegando a R$ 50 bilhões.

Tensões mundiais fazem com que investidores procurem ativos seguros. Para isso, os títulos do governo americano são referências. Assim, o fluxo de recursos internacionais se vira para os EUA. A guerra comercial dos EUA com a China se alastrou por muitos meses e ainda não teve um fechamento claro, deixando todos aflitos em como a ordem do comércio mundial será restaurada após negociações.

Junto à guerra comercial, a grande desaceleração dos grandes centros econômicos, como a Europa, e o corte de juros no mundo todo elevam os níveis de incerteza também. Estímulos econômicos estão sendo a saída para aumentar a liquidez do mercado e estimular investimentos e criação de emprego. Além disso, vemos uma atuação mais “conservadora” dos bancos ao redor do mundo, aprendizado gerado pela crise de 2008.

O Brasil está neste contexto apresentado acima. Enquanto o nosso país não apresentar um crescimento sustentável e notável para os investidores estrangeiros, junto com uma melhora da confiança mundial, a percepção desses ainda será de maior risco.

O Coronavírus está se alastrando pelo mundo e seus impactos ainda são desconhecidos para a economia mundial. Entretanto, um detalhe é certo: sua disseminação “atrasou” grande parte da economia mundial devido ao impacto na cadeia de suprimentos. Portanto, mais um motivo para que o foco do investidor estrangeiro fique fora de investimentos em países em desenvolvimento.

O comportamento da equipe econômica do Brasil já está muito claro para alguns investidores e até exagerada para outros. O câmbio desvalorizado é uma realidade assumida dentro do país e a atuação do Banco Central, apesar de estar ativa nessas últimas semanas, não é de abaixar o câmbio e sim controlar em patamares que acredita ser aceitável.

Dessa forma, a equipe do ministério acredita que o câmbio em patamares mais desvalorizados fará diferença dentro do contexto de crescimento de PIB, focando em exportações e vendas de reservas internacionais. Entretanto, isso é perigoso caso o Brasil não cresça no curto prazo.

O momento é de cautela. A atuação do Banco Central será para conter a alta e manter o controle. O governo e o mundo estão dando estímulos à economia para que nada pare de funcionar. Alguns setores aqui no Brasil irão sofrer mais com a alta do dólar, como a indústria farmacêutica e mecânica, e outros sairão mais contentes como o agropecuário e exportação de minério. A exposição ao dólar deve ser uma estratégia de diversificação e principalmente de proteção, variando entre 5% a 10% de sua carteira.

Por enquanto, poucos balões a mais, poucos balões a menos carregarão o dólar em um céu nublado...

Compartilhe esse artigo: