Renda Variável

Insights: a você, saúde!


O ano de 2019 foi o momento em que as operadoras de saúde presentes na bolsa de valores caíram na graça dos investidores. Tanto NotreDame Intermédica, quanto Hapvida vivenciaram altas de mais de 100% no ano. 

Depois de ver substancial valorização, o investidor pode se perguntar se ele já perdeu a chance de entrar ou ainda pode investir nessas empresas. 

O modelo de negócios

As duas operadoras são caracterizadas por operarem de forma verticalizada, o que garante a maior vantagem competitiva dela, frente aos outros operadores de saúde. 

Quando dizemos que uma empresa é verticalizada, isso quer dizer que ela detém ao menos dois processos em sua cadeia de produção ou de serviços. 

Uma empresa que produz e vende roupas ao consumidor final é verticalizada, visto que ela recebe a matéria prima, confecciona as peças, tem o trabalho de logística para que os produtos cheguem às suas lojas e as vende aos seus consumidores, elaborando os devidos planos de estratégia de marketing e colocação, por exemplo. 

Hapvida e Intermédica são verticalizadas pois vendem aos seus clientes planos de saúde onde o paciente pode passar por consultas, realizar exames de laboratório e fazer cirurgias através de operações próprias. 

Isso quer dizer que o operador não tem de pagar à clínica ou ao laboratório por um exame pré-operatório, o que reduz o custo e da maior poder à empresa. Além disso, a empresa pode criar protocolos internos que funcionem de maneira ágil, diminuindo o tempo de espera do paciente entre exames e internação. 

Também é possível criar rotinas de exames preventivos, a fim de diminuir o índice de sinistralidade, que é o quanto a empresa gasta com solicitações dos pacientes, comparado ao faturamento com planos de saúde. 

A inflação médica é um grande problema e as operadoras verticalizadas excluem este ponto, uma vez que boa parte de seus médicos são contratados e não conveniados. Médicos e clínicas ganham por complexidade do exame e quantidade de visitas do paciente, enquanto que os mesmos contam com dados limitados sobre o cliente. 

Os hospitais também ganham mais quando os clientes ficam por mais tempo internado, além de verem suas receitas aumentarem quando os procedimentos aos quais os pacientes são submetidos são mais complexos. 

Como o operador consegue ter um maior controle sobre os custos de atendimento, essas empresas podem oferecer planos mais baratos, que ofereçam soluções completas para seus beneficiários. Além disso, a margem de lucro é maior, visto que a maior parte dos custos estão dentro de casa. 

Saúde no Brasil

O Brasil é o terceiro país que mais gasta no mundo com saúde, atrás apenas de EUA e China. Apesar disso, apenas 24% da população brasileira têm acesso à planos de saúde. 

O primeiro ponto que quero destacar, é que o sistema de saúde pública em nosso país é precário e está fadado ao fracasso. O governo já aprovou diversos planos de contenção de gastos e simplesmente não conseguirá arcar com toda a demanda de saúde que ocorrerá nos próximos anos. 

As filas de espera são enormes, não há agilidade nos atendimentos e pessoas com demandas urgentes não são atendidas. Infelizmente esta é a situação que mais de ¾ da população está submetida. 

O alto desemprego no país corrobora para a situação. Apesar de ser um gasto importante para as famílias, o custo com plano de saúde é alto e é muitas vezes cortado do orçamento em momento de crise. 

Além disso, diversas famílias só utilizam planos de saúde por conta do empregador, que muitas vezes concede o benefício aos seus funcionários. Quando o sujeito perde o emprego, perde também o plano de saúde e acaba não fazendo um novo plano individual ou familiar. 

Acontece que estamos no início de um ciclo de recuperação forte da economia. Com a recuperação da economia, diversos empregos serão gerados, como os dados recentes já estão mostrando. 

A recuperação dos empregos faz com que diversos planos corporativos passem a ser gerados novamente. Intermédica e Hapvida oferecem a solução para os planos corporativos, com a amenização da inflação médica. O empregador não tem mais que se preocupar com funcionários insatisfeitos com um plano de saúde ruim. 

E acredite, isso faz toda a diferença dentro de uma empresa. Oferecer o melhor suporte aos seus funcionários faz com que uma empresa saia de boa para excelente. Além disso, os melhores benefício atraem os melhores talentos. Como já diria André Ribeiro, da Brasil Capital: gente boa faz diferença. E gente ruim também faz. 

Some a isso o fato de que mesmo que as empresas não ofereçam o benefício, o cidadão que sai do desemprego e passa a ter renda, pode novamente fazer a aquisição de um plano de saúde individual ou familiar, o que gera um fluxo de receita para dentro da empresa. 

Novo panorama etário do brasileiro

A tendência demográfica brasileira tem mudado cada vez mais para um padrão mais próximo do observado nos países desenvolvidos, onde a população acima de 60 anos ganhou maior volume. 

Além disso, observamos nas últimas décadas um aumento substancial na expectativa do brasileiro, que ao viver mais, gastará mais com saúde. 

No geral, essa categoria é a que mais gasta com saúde. Ou seja, o mercado potencial está em expansão para as operadoras de saúde. A demanda será cada vez maior e vencerá a disputa as empresas de excelência que estiverem melhor preparadas. 

Oportunidade de consolidação

O setor de saúde é extremamente fragmentado no Brasil, com mais de 700 operadores espalhados por todo o país. De todo o mercado, Hapvida tem uma participação de 7,1%, sendo a segunda maior empresa em market share e Intermédica tem uma participação de 6,8%, na quarta colocação. 

Como já foi apresentado, o modelo de negócios das duas empresas é o vencedor neste mercado com inflação médica controlada, estrutura de incentivos alinhada e qualidade no atendimento. E elas já saíram na frente dos concorrentes, ganhando uma grandiosa escala sobre o restante. 

Tanto Hapvida, quanto NotreDame já saíram às compras em diversas vezes. A excelência operacional aparece também neste momento. Depois de fazer uma aquisição, a empresa deve realizar um trabalhoso processo de integração a fim de capturar sinergias. 

Podemos dizer que ambas as empresas fazem o estado da arte neste processo. Os processos de integração guiados por elas foram capazes de capturar sinergias em tempo recorde. 

A NotreDame foi uma empresa que surgiu dentro de um fundo de Private Equity da Bain&Co, uma das três maiores empresas de consultoria estratégica do mundo. Sabe aquela história da gente boa? 

Quando você tem ao seu lado os melhores consultores do mundo, pessoas que já passaram por diversos processos empresariais e já ajudaram as maiores empresas do país com suas demandas, essas integrações ficam mais fáceis e nisso a NotreDame tem vantagem frente à Hapvida. 

Isso não é, no entanto, uma crítica à Hapvida, que também tem um processo muito bem estruturado e consegue capturar sinergias de forma ágil. Apesar de um background de empresa familiar, a companhia tem diversos conselheiros independentes, além de um time de gestão altamente capacitado. 

Mas qual comprar?

Não é incomum encontrarmos ambas as empresas juntas nos portfólios dos mais renomados gestores de ações do Brasil. Então por que não as duas?

A Hapvida tem uma presença mais forte no nordeste, apesar de, através de seu processo de expansão, ter colocados os pés já nas cinco regiões do país. 

Além disso, o posicionamento de mercado da empresa tem um foco maior em vender planos de saúde baratos, acessíveis a qualquer um, o que configura à empresa um dos menores ticket médio do setor. Além disso, a empresa também tem força nos planos corporativos. 

Por oferecer planos mais acessíveis, a empresa tem um crescimento endereçável gigantesco, visto que a renda per capita do brasileiro ainda é baixa. Por ter sua operação verticalizada, a Hapvida consegue mitigar custos e por conta disso oferecer soluções mais baratas. 

A NotreDame por sua vez tem um foco de expansão em cinturões, fazendo aquisições ao seu redor e ir aumentando cada vez mais o raio deste cinturão. A empresa surgiu no estado de São Paulo e está ganhando cada vez mais relevância no sudeste. 

A empresa tem um foco muito forte nos planos corporativos, que oferecem uma fonte de receita mais previsível, o que ajuda no planejamento para outras aquisições, por exemplo. Atualmente, mais de 85% dos planos da empresa são corporativos. 

Os planos individuais ou familiares da Intermédica são mais caros, o que é possível pela presença massiva no sul/sudeste. Isso, no entanto, diminui o mercado potencial da empresa. 

Agora trago uma opcionalidade longuíssimo prazo. Em diversos conversas com gestores, já me foi ventilado a possibilidade de uma fusão entre as duas empresas. O smart money diz fazer sentido a fusão, visto que as empresas seriam complementares e teriam sinergias gigantescas a serem capturas. 

Se vai acontecer ou não, não tenho a capacidade de te dizer. É uma opcionalidade justamente por ser algo difícil de se prever e, consequentemente, a expectativa não está no preço de nenhuma das duas ações. 

O que já sabemos de antemão, é que saúde continuará a ser um serviço essencial. 

Compartilhe esse artigo: