Renda Variável

Insights: Bolha pontocom 2.0?


O mercado financeiro é famoso por antever os movimentos da economia. Por essa característica, por vezes formou investidores que foram capazes de antever grandes mudanças na estrutura de negócios e por conta disso foram capazes de angariar grandes retornos.

Também foi comum os investidores que no passado foram capazes de antever grandes bolhas, com as mais recentes sendo as bolha .com e a bolha dos créditos imobiliários nos EUA. Como no mercado financeiro, para ser bem-sucedido você precisa primeiro sobreviver, evitar as grandes perdas é tão ou mais importante do que capturar altos retornos. 

Hoje em dia está em voga a discussão sobre as grandes empresas que utilizam a tecnologia para escalar seus negócios e negociam a um valuation altíssimo, por vezes fora do padrão convencional. 

Seria essa a bolha .com 2.0 ou apenas uma mudança na forma como as pessoas se comportam, fazem negócios e consomem?

Modelo de negócios

O atual modelo de negócios das empresas de tecnologia busca conectar os clientes à internet para então facilitar a vida dos mesmos através de soluções inovadoras e custos mais baixos.

Os avanços nessas empresas até hoje, mostram que o foco está em facilitar a vida das pessoas físicas e micro e pequenas empresas. Esse segmento de clientes é geralmente negligenciado pelos incumbentes, o que faz com que existam grandes oportunidades para as empresas que atuam em melhorar a qualidade de serviços para esta categoria. 

O advento da internet fez com que atingir essa classe se tornasse possível, com custos de distribuição e estrutura mais baixos. 

Podemos tomar o Uber como exemplo, que surgiu para atacar o mercado de taxis, que cobravam preços altíssimos por seus serviços. Através de sua plataforma, foi capaz de conectar motoristas a passageiros, a um custo muito mais baixo do que o convencional.

O motorista não precisaria mais obedecer a todas as leis não escritas do mercado de taxis e o cliente não precisaria mais arcar com os custos elevados das corridas convencionais. O Uber veio como uma plataforma que gera valor para ambos os lados da cadeia. 

As mudanças que a companhia incitou podem fugir aos olhos mais desatentos. Se a pergunta sobre o impacto que o Uber gerou for feita, poderemos receber como resposta que alterou a dinâmica do mercado de taxis. A grande questão, é que ela também alterou o ambiente de negócios de outros segmentos. 

Com a expansão do número de usuários dos aplicativos de transporte, a receita de estacionamentos nos centros das cidades diminuíram. O mesmo fenômeno pôde ser enxergado para os estacionamentos de shoppings. 

Além disso, as compras de veículos caíram, visto os avanços na questão do compartilhamento. Se no futuro enxergaremos uma compressão no mercado de combustíveis e inclusive de exploração de petróleo, não é possível saber. 

Mas é justamente essa última afirmação que guia o investimento nas empresas de tecnologia. É impossível saber ex ante qual será o impacto da tecnologia nos ambientes de negócios adjacentes. Os que acham que sabem são ainda mais perigosos, pois representam um mapa errado. Nessa situação, é melhor não ter mapa do que ter um mapa errado. 

Exponencialidade

As nossas cabeças são formadas para pensar de forma linear, não exponencial. A questão é que o mundo que vivemos hoje e, consequentemente, as empresas nele inseridas e as pessoas que nele vivem, é exponencial. 

A dificuldade de se prever algo em um mundo exponencial pega até os mais capacitados. Nos anos 80, a McKinsey prestou um projeto de consultoria para uma empresa que gostaria de entender mais sobre o mercado de telefonia móvel. 

A McKinsey previu que nos anos 2000, os usuários de celular não seria maior do que um milhão. Ocorreu que na virada do milênio, mais do que 100 milhões de pessoas já utilizam o celular ao redor do mundo. 

É sob esta ótica de exponencialidade que o investimento em empresas de tecnologia é realizado. Acredita-se que o potencial de crescimento e disrupção que elas têm é gigantesco e impossível de ser mapeado. Assim como o Uber não pôde ser previsto, Airbnb, Apple e Netflix também não o foram. 

Se trouxermos para o mercado brasileiro, os bancos tradicionais assistiram de fora o avanço que a XP Investimentos teve e agora tentam correr atrás do prejuízo. O mesmo aconteceu com Banco Inter, Stone, PagSeguro e Quinto Andar. 

Os incumbentes tiveram dificuldades ou negligenciaram esses segmentos e agora têm em suas mãos um grande problema para administrar. 

Valuation

Existe o argumento de que o preço justo de várias das empresas de tecnologia é muito menor do que elas estão valendo hoje. A afirmação deve ser questionada, uma vez que existem bons e maus exemplos. 

Na década passada, diversas empresas de tecnologia foram criadas no Brasil. Muitas delas não deram certo pelos mais variados motivos, dentre os quais estavam a baixa penetração da internet no Brasil, com problemas de infraestrutura e modelos de negócios não testados que posteriormente se mostraram fracassados. 

Apesar disso, nessa época surgiu o Mercado Livre, que por mais que seja uma companhia Argentina, tem no Brasil o seu maior mercado; Uol e Submarino. 

Pode parecer que foi um movimento fracassado, onde poucas empresas sobreviveram, talvez ao acaso da sorte ou de um modelo de negócios único que jamais poderia ser replicado. 

Mas o caso aqui é o ambiente que essas empresas estão inseridas. O racional de investimentos em diversas empresas de tecnologia se pauta no ambiente de competição vencedor-leva-tudo.

Este modelo diz que uma empresa irá dominar o mercado e ditar a forma como este mercado se comportará, com os poucos concorrentes que sobraram, tendo que seguir as leis que esta empresa ditará. 

Neste ambiente, poucas empresas sobreviveriam, o que explica o motivo de existirem tão poucas empresas após a bolha dos anos 2000. 

Viva o empreendedor

É difícil existir investimento em empresa disruptiva com base em análise quantitativa. Não existe fluxo de caixa descontado para empresas de tecnologia, justamente pelo fato de que esse modelo envolve premissas futuras, como qual será a receita da empresa nos próximos 10 anos.

De que forma iremos prever a receita da empresa daqui a 10 anos se não sabemos nem se ela irá existir? Além disso, o crescimento de receita, caso ela exista, não será linear e sim exponencial. Mas exponencial em qual ritmo? 

Assim sendo, ao investirmos em empresas deste tipo, é necessário acreditar no time de gestão, nos empreendedores daquela empresa, que têm naquilo um estilo de vida e que vivem o negócio todos os dias. Não da para falar em múltiplos realmente. Os múltiplos vão ser altos mesmo. Por vezes nem mesmo existirão múltiplos, pois a empresa nem gera lucro ainda. 

Conclusão

O investimento em empresas de tecnologia no Brasil é demasiadamente complicado. Temos poucas empresas puramente tech listadas em nossa bolsa. A tendência é que esse número aumente no médio - longo prazo. A única empresa que para mim se encaixa nesta categoria é o Banco Inter. 

Podemos citar Banco Pan, BTG e Magalu, mas para mim se encaixam em uma outra categoria. O investidor brasileiro já consegue acessar o mercado americano, onde existem diversos casos com as características aqui citadas. 

Por fim, vale dizer que por mais que o investidor tenha um processo de análise de empresas muito apurado e que consiga identificar casos de sucesso antes do que a massa, o caso não é de concentração. 

Investimentos em tecnologia são por natureza mais arriscados. Conforme já mencionado, poucas empresas irão sobreviver e a dificuldade é justamente identificar essas sobreviventes no longo prazo. 

Desta forma, é sempre interessante a diversificação de setores em sua carteira. Vale a pena ter uma participação desta categoria em sua carteira, desde que seja diversificada e adequada ao seu portfólio. 

Compartilhe esse artigo: