Renda Variável

Insights: montando sua carteira para 2020 Pt. III


Depois de apresentar a você o racional que nosso portfólio deve ter para os próximos anos e passar mais detalhadamente sobre a composição de renda fixa e fundos multimercados, chego hoje ao final desta série de três artigos. 

Nos resta dissecar os outros 50% da nossa carteira e onde ela deve ser alocada. 

Ações

O ano de 2019 foi de muito aprendizado no ambiente macro brasileiro. Iniciamos o ano lotados de otimismo, que se esvaiu conforte o calendário foi girando. 

Uma valorização de quase 10% da bolsa no primeiro mês do ano, acompanhado do recorde dos 100 mil pontos do Ibovespa em fevereiro nos fez trazer mais cedo do que deveríamos o discurso de que this time is different. 

Realmente fazia sentido, mas precisávamos passar por algumas provações antes que isso concretamente se materializasse. 

Com o passar do ano passamos a ter menos medo do que Jair Bolsonaro e sua trupe falam, aprendemos a lidar com o medo da Guerra Comercial entre as duas maiores potências do mundo e a possível recessão global que isto poderia causar - quando foi que isso acabou mesmo? 

Também aprendemos a confiar um pouco mais no pessoal do congresso, que claro, fez seu show e apareceu na mídia, apenas para aprovar com uma aceitação maior do que a esperada da Reforma da Previdência. 

O crescimento não veio, felizmente a inflação também não. O que veio e veio forte foi a queda de juros. Quatro reuniões consecutivas do Copom com corte de juros de 0,5% e repentinamente - será? - temos a Selic no menor patamar de sua história. 

Teríamos que passar por estes aprendizados ao longo do ano para que o caminho esteja pavimentado a partir de agora. Não vamos colocar o carro na frente dos bois, como se costuma falar no interior. 

Qual o efeito quase que imediato disso tudo? O número de investidores na bolsa dobrou em apenas um ano. Calma, ainda estamos abaixo do patamar de 1% da população brasileira investindo em ações, mas novamente, calma. 

Enquanto isso, o número de investidores em fundos imobiliários triplicou. Parabéns aos envolvidos. Estamos no caminho. 

Todos estes pequenos problemas, alguns meses atrás, assim que vieram à mídia anunciá-los, eram grandes demais para serem resolvidos. Ah esses poetas do apocalipse…

Indo ao que interessa, a grande beneficiada das mudanças estruturais que estão acontecendo no Brasil é justamente a renda variável. Ativos reais se valorizam na veia de juros estruturalmente baixos. 

Primeiro porque os projetos que eram inviáveis com taxas de juros acima de 10%, ficam muito mais palpáveis quando estamos no patamar de 4,5%. E não se deixe levar pela boa nova dos pessimistas. A inflação do último mês até assustou ao levar a projeção para a casa dos 3,8% - o que fizeram com o Brasil?

A questão é que esse aumento na expectativa de inflação foi causado principalmente pelos alimentos, que devem se normalizar em questão de preços ao longo dos próximos meses. O núcleo de inflação, que é o que importa no fundo, ainda está ancorado e corrobora para um patamar baixo de juros. 

Voltando às ações, as empresas tiveram que fazer a lição de casa na última crise. Na mesma narrativa de que precisávamos passar por uma provação em 2019 para que pudéssemos evoluir, os executivos que tocam as maiores companhias do país tiveram de quebrar a cabeça em planos estratégicos para sobreviver à crise. 

Em um esquema de antifragilidade, depois de ter passado por este período de dificuldades, estas empresas saem da crise ainda melhores do que entraram, pois agora sabem sobreviver caso a adversidade volte. O mesmo vale para o time de gestão, que foi forçado a usar a cabeça de formas inimagináveis e agora estão ainda mais preparados para os desafios que surgirão à frente. 

Uma parte do dever de casa das empresas foi enxugar ao máximo suas estruturas de custos, principalmente cortando gastos com mão de obra e desligando máquinas. 

Com o retorno da demanda prometido e esperado para 2020, as empresas começaram a contratar, mas terão um mão de obra mais barata em termos reais do que no passado, visto que o estoque de trabalho está muito alto. A famosa lei da oferta e demanda. 

A partir do momento em que as pessoas passarem a demandar produtos, é só ligar as máquinas novamente e a produção volta a acontecer a pleno vapor. Os custos continuarão baixos, mas a receita tende a aumentar, o que aumenta o lucro exponencialmente. 

Sabemos que no longo prazo, o preço das ações segue o lucro das empresas. Portanto podemos aguardar uma ótima valorização para este próximo ciclo.

Para os que possam argumentar que a bolsa já subiu muito e que, no geral, a bolsa já está cara, podemos pegar por exemplo a relação de preço/lucro do Ibovespa. Atualmente este múltiplo está no nível da média histórica. 

Acontece que o ciclo atualmente é sem precedentes e deveria negociar com prêmio para a média histórica. O Brasil nunca teve o potencial que tem agora, com o corte de gastos públicos e abertura cada vez maior da economia. 

Este cenário é inédito e o potencial é gigantesco. Se é algo nunca antes visto, o múltiplo de preço/lucro também deve ser de algo nunca antes visto. Existe um bom crescimento de lucro projetado para as companhias para os próximos anos, o que diz que para chegar neste ponto de máxima histórica, os preços devem subir ainda. 

Dado o cenário descrito acima, realmente julgo a renda variável como a classe que mais vai se beneficiar e deve ser muito ganhadora de dinheiro neste ciclo que está apenas começando. Esta é a justificativa para uma exposição de 35% às ações. 

Esta exposição pode ser feita de duas formas: comprando os papéis a vista no mercado, fazendo um stock picking; ou fazer a alocação através de fundos de investimentos em ações. 

O primeiro caso é indicado para quem já tem experiência no mercado e tem a disposição tempo e muita vontade de aprender. Investir em ações não é difícil, mas está longe de ser fácil. Exige muita dedicação e muito controle emocional para fugir das trapalhadas quando ver sua ação caindo 5% em um único dia. Quando cair 10%, 15% então…

Apesar disso, se você se sentir confortável, a exposição direta nas ações te livra de pagar as taxas de administração e performance presente nos fundos de ações. 

A segunda forma de exposição é feita via fundos e é indicado à maioria das pessoas, visto que em geral os investidores trabalham em outras atividades durante o dia, além de ter de alocar tempo para a família, capacitações, lazer, etc. 

Se este for o seu caso, o ideal é alocar estes 35% em, no mínimo, três fundos de ações. É interessante contar com três fundos long only, aqueles que podem operar apenas na ponta compradora devem ter ao menos 67% do patrimônio comprado em ações. 

Também vale a pena ter um ou dois fundos long biased, que em geral operam comprados, mas podem operar vendidos em ações também. Estes fundos tendem a se valorizar menos em momento de euforia na bolsa, mas sofrem bem menos quando a bolsa cai. 

Apesar do otimismo com as ações, o Brasil é o país onde os cisnes negros passam férias, pelo nosso passado, parece que as férias brasileiras e as europeias, dado a quantidade deles ao longo do ano…

Portanto, é sempre interessante estar alocado em ações, mas com um pouco de proteção, já dentro desta classe. 

Fundos Imobiliários

Assim como a relação entre ações em empresas, os FIIs são lastreados em ativos reais, mais precisamente imóveis. 

Essa classe ganhou muito em 2019, visto que os juros caíram 2% apenas neste ano. 

O próximo ano tem um ótima perspectiva para os fundos imobiliários. Tratando apenas das três maiores classes de fundos imobiliários, a volta do crescimento econômico deve impulsionar muito os aluguéis. 

Falando primeiramente dos fundos de shoppings, com o desemprego começando a diminuir e os juros em patamares baixos, o consumo das famílias deve explodir, visto que a renda disponível irá aumentar e a maior visibilidade econômica torna o acesso ao crédito mais fácil. 

Os shoppings no Brasil são verdadeiros centros urbanos onde se pode fazer tudo: compras, ir ao cinema, ir à agência bancária e ter uma consulta médica. Resumindo, as pessoas conseguem resolver grande parte de suas demandas dentro de um shopping. 

A abertura de lojas em shoppings em 2020 deve aumentar, o que irá aumentar a procura e logicamente, aumentará os preços cobrados nos aluguéis. 

A retomada da economia também impulsiona a abertura e expansão das empresas, que precisarão alocar seus funcionários dentro de escritórios. A procura por lajes corporativas também ajuda na revisão dos aluguéis para cima. 

Por fim, a procura por galpões logísticos também deve aumentar muito nos próximos anos, visto que uma economia aquecida demanda muito espaço para bens materiais, que serão alocados em grandes galpões para estarem preparados para atender a demanda das lojas. 

Todo o cenário ajuda a revisar aluguéis para cima, o que aumenta a distribuição por cota. Por ser obrigado a distribuir 95% de sua renda obtida de aluguéis, os FIIs são uma ótima opção para renda mensal. 

A destinação da renda fica a seu critério. O mais interessante seria o reinvestimento nesta ou em outras classes de ativos, mas não serei eu que te julgarei caso opte por gastar os proventos na sua próxima viagem. 

Proteções

Ah, como eu queria poder prever com exatidão o que acontecerá no futuro. Seria muito fácil, eu venderia tudo que tenho, iria ao banco pedir dinheiro emprestado e investiria tudo na ação que mais se valorizaria. 

Mas o futuro insiste em ficar lá na frente, inacessível aos meros mortais como eu e, presumo que, você. Nem mesmo o passado é um bom indicativo do que acontecerá no futuro. Novos fatos aparecem a todo momento para nos provar algo que sequer havíamos pensado. 

Se eu estou otimista com o ciclo econômico atual? Muito. Se eu acho que ele é inédito e tem um potencial gigantesco de geração de valor? Sem dúvidas. 

Mas é tudo exatamente isso. Eu acho. Eu não tenho certeza. E se você conhece alguém que diz ter certeza, fuja enquanto há tempo pois você acabou de encontrar um charlatão. Provavelmente ele nem investe, não tem skin in the game como eu e você. 

Se pudéssemos, de alguma forma, acessar o futuro e conhecer os ativos que mais se valorizaram, isso configuraria um almoço grátis e, em geral, eles não estão disponíveis. 

Assumida a nossa incapacidade em prever o futuro com exatidão, partimos então para nos proteger, caso o nosso cenário base não se concretize. 

Vamos então esclarecer o cenário base que eu tenho e que motivou a criação deste portfólio: Acredito que nos próximos anos os juros permanecerão baixos, acontecerá uma onda de concessões e privatizações, a economia brasileira irá se abrir cada vez mais, as reformas serão aprovadas, o Brasil ganhará novamente o selo de grau de investimento e caminharemos à liderança entre os países emergentes. 

Olha, é muito otimismo, inclusive para mim. É até provável que de tudo que falei acima, algumas coisas não se mostrem verdadeiras, mas nada que atrapalhe a tese. 

Mas se algo inesperado ocorrer a ponto de anular a tese de investimentos, é necessário que estejamos preparados. Por conta disso sugiro uma alocação de 5% em ativos que nos protegem em um cenário que as coisas saiam dos trilhos. 

O ouro é universalmente aceito como reserva de valor em todo o mundo. Onde quer que você vá, o ouro será aceito como moeda. Isso não é uma discussão, é uma verdade. Além disso, o metal precioso já mostrou que tem correlação negativa com o dólar, a ponto de ganhar valor em momentos de tensões mundiais. 

Pasmem, mas o ouro foi uma das classes de ativos que mais se valorizou globalmente em 2019. 

O dólar é a moeda fiduciária mais segura do planeta e também é ganhadora de dinheiro contra todas as outras moedas em momentos de tensão. Isso porque no pior dos casos, os investidores ao redor do mundo vendem tudo e correm para os Estados Unidos. Isso causa uma onda compradora no dólar, que joga o preço da divisa para cima. 

Lembre-se que o objetivo não é especular com o dólar e ganhar dinheiro. O que se diz é que as previsões do câmbio foram criadas para que os economistas fossem mais humildes - ou seria mesmo para humilhá-los sempre que tentam prever para onde vai a moeda? 

Desta forma, compre dólar e não se preocupe com o preço. Se cair um pouco ok, mas se tudo der errado, isso vai se valorizar muito e você vai agradecer a si mesmo por ter comprado dólares. 

Por fim, existe a possibilidade de fazer proteções com opções de venda fora do dinheiro, que se valorizam no cenário de queda expressiva das ações. 

Vale dizer que é interessante ter um pouco dos três. O ouro e o dólar podem ser acessados via fundos de investimentos, enquanto que as opções terão de ser compradas a parte. 

Esteja preparado para ver essa parcela do seu portfólio cair ou não sair do lugar. É inclusive interessante que isso aconteça, visto que isso é um indicativo de que o restante da carteira está indo de vento em popa. 

Ouro e dólar tem um carácter de convexidade muito interessante. Esses ativos nunca irão valer zero, mas em momentos de estresses eles se valorizam de forma expressiva. 

As opções podem virar pó, mas se forem acionadas, proporcionam um ganho exponencial. 

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