Renda Variável

Por mares nunca dantes navegados


Não sei como se sairiam nesta crise os navegantes portugueses. Por mais heroicos e cheios de coragem que fossem, como brilhantemente narrou Luís Vaz de Camões, acredito que não muito bem. 

Quando Ray Dalio, gestor do maior hedge fund do mundo perde um dinheiro absurdo, justamente por não saber como reagir ao momento, pode apostar que os resultados não serão muito animadores para os meros mortais que estão abaixo dele. 

Se você, assim como eu, perdeu dinheiro nesta crise - ou ao menos viu suas posições sendo marcadas para baixo - paciência, não dá para ganhar sempre. 

A questão é que hoje temos de tomar uma nova decisão permeada por riscos, incertezas e diversos caminhos a tomar. Cada um com seus prós e contras. Cada escolha uma renúncia, como diria o grande Chorão, anos atrás.

Mesmo que a decisão seja fazer nada, essa é uma decisão. Incorra em suas consequências. 

Dado o atual cenário mundial, com lockdown na maior parte do mundo, quais decisões devemos tomar com nossos investimentos a partir de agora?

Os impactos do Covid-19

Certamente teremos o novo Coronavírus impactando a economia mundial em 2020. Isso está dado, não tem o que fazer. A tarefa de gestores, estrategistas e analistas é de encontrar o quanto e por quanto tempo teremos as economias mundiais afetadas. 

A China parece voltar à normalidade depois de ser o epicentro do vírus. Ao governos chinês e demais países vizinhos, uma salva de palmas pelo exemplo de como se deve fazer um shutdown. A postura exemplar fez com que o vírus fosse dizimado por lá. 

O Coronavírus, no entanto, se espalhou rapidamente pelo resto do mundo, assolando de maneira mais séria a Itália. Espanha, Estados Unidos e Brasil estão entre os países que foram fortemente afetados também. 

A situação na Itália demorou a ser levada a sério e quando a população e o governo se tocaram, a situação já era bem crítica. O número de vítimas fatais já ultrapassou o que foi visto na China e faltam leitos de UTI para o país. 

Com todo esse fluxo negativo de notícias, bolsas ao redor do mundo desabaram, o dólar disparou contra outras moedas e os países ligaram um grande sinal de alerta. 

Ao que parece, a situação na Itália foi considerada o cenário base pelos agentes de mercado, que parecem precificar o pior cenário possível. Parece que o mercado não levou em consideração alguns critérios que facilitam a propagação do vírus na terra dos genoveses. 

As políticas públicas na Itália são precárias e o governo, novamente, demorou a tomar medidas necessárias para tratar o caso. O clima na Europa ainda é de bastante frio e um dos fatores mais importantes, a Itália é o segundo país do mundo em número de idosos em relação ao percentual total de habitantes. 

Infelizmente o vírus tem consequências muito sérias em pessoas de mais idade, que já se encontram com o sistema imunológico baixo e em diversos casos, já têm outras doenças que os acompanham. 

Outros países, como Coréia do Sul e Singapura foram rápidos ao agir, ordenando à população que permanecesse em casa e o shutdown comprovadamente é a forma mais eficaz de conter o avanço do Covid-19. 

Ao que parece, a vida segue normal nos países orientais, onde o vírus foi levado a sério desde o início. 

Ações coordenadas

Os bancos centrais ao redor do mundo foram rápidos ao agir. O FED agiu logo no início de março, cortando de forma extraordinária 0,5% de sua taxa de juros. Duas semanas depois, em outra reunião extraordinária, anunciaram o corte dos juros para 0%. 

Além disso, o BC americano reiniciou o quantitative easing, que é um afrouxamento monetário, com a recompra de títulos para injetar mais liquidez nos sistema. 

Além da política monetária, os EUA já se dispuseram a realizar diversos incentivos fiscais para prevenir possíveis quebras nas empresas e uma eventual crise de crédito, que poderia levar os bancos americanos à falência. 

Outros bancos centrais, como Inglaterra e Europeu anunciaram cortes de juros e incentivos fiscais, também buscando salvar a economia do continente de uma recessão mais forte. 

No Brasil, na última quarta-feira tivemos mais um corte na taxa Selic, com o Copom trazendo o juros básicos brasileiro para o patamar de 3,75%. Além disso, o governo brasileiro já anunciou incentivos fiscais e deve tomar novas medidas com o passar dos dias. 

O Brasil conta com um trunfo nesta crise por sua característica contra-cíclica em relação ao resto mundo. Aqui estamos no início do ciclo de recuperação de nossa pior recessão republicana. Existe um hiato do produto muito grande, a economia está estagnada, o desemprego está alto e a inflação está ancorada. 

Com o panorama mostrado acima, o BC não tem motivos para subir a Selic no curto prazo. Para ajudar a conter o dólar, que escalou desde meados de fevereiro, nosso Banco Central conseguiu um contrato de swaps cambiais com o FED. Além disso, contamos com imensas reservas cambiais que o governo pode leiloar caso ache necessário conter o câmbio. 

Teremos ainda uma demanda reprimida na economia brasileira em 2020. As pessoas irão consumir menos por um a três trimestres, o que irá afetar de alguma forma os lucros e margens das empresas.

As projeções de crescimento de PIB no Brasil foram revisadas para baixo, com previsões inclusive de PIB negativo. Mais sobre isso à frente. 

O que fazer agora?

É provável que muitos de vocês tenham visto grandes perdas em seus investimentos. Se tratando de investimentos, todo dia temos de tomar alguma decisão. Vender, manter ou comprar? 

Os ativos de riscos, quase que em sua totalidade, apresentam algum tipo de desvalorização. O que está precificado é uma perda de fundamento gigantesca e as revisões de PIB jogaram ainda mais água no chopp dos investidores. 

Devo lembrar, no entanto, que temos um grupo de empresas listadas que são as melhores do seu setor e definitivamente são as melhores empresas do Brasil. Este tipo de negócio é sólido, tem muita liquidez e em geral tem capacidade de atravessar tempos de crise. 

Isso é uma inferência empírica, ao passo que no quadriênio de 2015 a 2018 não tivemos crescimento de PIB. Ainda assim, essas empresas conseguiram entregar crescimento de lucro, ganho de participação no mercado e saíram da crise com uma posição ainda mais dominante frente aos concorrentes. 

O PIB estagnado afasta novos concorrentes. Se o cenário econômico não está satisfatório, as pessoas ficarão com mais ressalvas sobre abrir um novo negócio. O mesmo vale para possíveis concorrentes externos, que ao olhar para o Brasil, já encontram diversas dificuldades no ambiente de negócios. 

Se o cenário não estiver perfeito, eles também ficarão mais reticentes em abrir uma unidade no Brasil. Com isso, o profit pool do setor continua sendo dividido entre as empresas que já estão no mercado. 

A vantagem vai para as empresas com maior porte, caixa e linhas de crédito robustas, que possibilita à companhia atravessar a crise sem precisar cortar produção ou quadro de funcionários. 

Além disso, se a empresa tem uma situação financeira mais favorável, ela consegue conceder descontos mais agressivos, a ponto de enfraquecer os menores concorrentes, o que pode possibilitar uma quebra no concorrente ou até uma aquisição estratégica. 

Com isso, quando a crise for embora e os lucros do setor se normalizarem, as empresas terão uma fatia maior do mercado e um lucro ainda maior do que tinha antes da crise. 

Note, no entanto, que toda essa dinâmica demora algum tempo. Os ciclos empresariais demoram meses para acontecerem e é preciso paciência. 

As empresas estão muito descontadas desde seu último pico. Por mais que possa parecer que não, a crise causada pelo Covid-19, passa. Uma hora ela vai embora. 

Ao investir em renda variável, devemos ter um ambiente temporal de longo prazo. É provável que daqui a três anos vejamos a atual crise apenas como um pequeno lapso nos lucros corporativos. 

Eu não sei onde essa queda irá parar, qual será o real impacto do coronavírus nas economias ao redor do mundo e se estamos próximos de encontrar uma vacina. A questão é que uma hora essa crise passa. 

Se tratando de ativos de riscos, a oportunidade está dada. Se você não tem nada em renda variável, pode ser um ótimo momento para colocar um pé nisso. Para os que têm alguma coisa e viram essa parcela da carteira derreter, pode ser o momento de vender um pouco do que não caiu e recompor a posição perdida nas quedas. 

Sempre com a cabeça no longo prazo. O atual movimento de queda ainda pode se estender. Pode ser interessante ir comprando aos poucos. Como disse Luiz Parreiras em um call com investidores hoje (20/3) pela manhã, se trata de uma oportunidade como 2008 e quando subir, será muito rápido. 

A questão é que existe um fator psicológico. O investidor que quer acertar o fundo do movimento, pode ver o mercado disparar em um dia e esperar voltar, pois viu esse comportamento em momentos anteriores. Se a disparada se estende por uma semana, ele nunca mais compra, pois acredita que ficou caro. 

Não estamos tentando pegar o fundo do movimento. O objetivo aqui é comprar bons ativos, que gerem bons retornos daqui a cinco anos. Tudo e só isso. 

Alocação tática

Além de abrir oportunidade de alocação no Brasil, a recente queda nos mercados mundiais também gerou uma oportunidade nos EUA. 

Por muito tempo, gostamos da alocação em ações exclusivamente no Brasil, visto que as características econômicas aqui apresentadas eram mais interessantes do que no restante do mundo. O Brasil contava com uma história de crescimento muito bacana, início de ciclo e preços das ações ainda comprimidos. 

O S&P 500 trabalhou por 10 anos consecutivos em alta. A recente queda deixou o principal índice da bolsa americana em preços de recessão. Sabemos do poder monetário e fiscal dos EUA, que foi rápido ao tomar medidas para salvar sua economia. 

Donald Trump está em ano de eleição e pode apostar que ele fará de tudo para manter crescimento na economia americana para que consiga se reeleger. 

Quando de uma recuperação global na economia, o mercado acionário americano deve ser o primeiro a reagir, uma vez que existem menos fatores de riscos nos EUA. 

Faz sentido, portanto, uma alocação em bolsa americana para o momento, além de manter também uma alocação em bolsa brasileira. 

Proteções

Com a atual crise, cresceu também a busca por proteções. Vale lembrar que uma carteira bem diversificada entre as classes de ativos já é um ótima proteção. 

Em relação estritamente a ouro, dólar e opções, não faz tanto sentido neste momento. O dólar pode até continuar subindo, mas é interessante esperar mais um pouco para ter esse ativo em carteira. 

O ouro teve quedas recentes na busca dos investidores globais por liquidez. As opções estão caríssimas com a volatilidade nos ativos de risco nas alturas. 

Acredito ser necessário uma mescla desses ativos na sua carteira. No entanto, como não considero a quebra de fundamentos da tese de investimentos no Brasil como um cenário minimamente provável, acredito ser melhor esperar a poeira baixar para entrar nesses ativos. 

Conclusão

O mercado com seu caráter de maníaco depressivo por vezes nos faz acreditar que as coisas não irão melhorar e que o fim do mundo está próximo. Mas acredite, isso passa. 

Também não vale a pena sofrer pelas perdas passadas. Elas são doloridas mas são cicatrizes necessárias para nosso contínuo desenvolvimento como investidores. Ray Dalio perdeu dinheiro nesta crise por não saber o que fazer, segundo palavras dele mesmo. 

Se ajuda ainda mais, a turma do Verde também tomou uma ré em seus principais veículos. Se tem alguém que sabe investir e ganhar dinheiro é a dupla Luis Stulhberger e Luiz Parreiras da Verde. 

As perdas são normais, não conseguiremos acertar sempre e, principalmente, não iremos conseguir prever quando teremos o próximo cisne negro. Afinal, por definição, eles são imprevisíveis. 

Portugal não ouviu Luis de Camões quando o mesmo alertou em Os Lusíadas sobre um sociedade definhada. Desta vez existe uma dupla Luís/Luiz que nos alerta que a crise passa e que 2008 serve de escola. Cabe a você ouvir ou não.

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